Carnaval

A origem do Carnaval vem de uma manifestação popular anterior à era Cristã, tendo se iniciado na Itália com o nome de Saturnálias – festa em homenagem a Saturno.

No início da era Cristã, começaram a surgir os primeiros sinais de censura aos festejos mundanos na medida em que a igreja Católica se solidificava. Querendo impor uma política de austeridade, a igreja determinava que esses festejos só deveriam ser realizados antes da Quaresma. 
Os italianos adotaram, então, a palavra Carnevale, sugerindo que se poderia fazer Carnaval – “ou o que passasse pelas suas cabeças” antes da Quaresma, numa espécie de abuso da carne.Outra versão da palavra Carnaval está no dialeto milanês,Carnevale que quer dizer “o tempo em que se tira o uso da carne”, já que o carnaval é propriamente a noite anterior à quarta-feira de cinzas.
A festa chegou a Portugal nos séculos XV e XVI, recebendo o nome de Entrudo, isto é, introdução à Quaresma, através de uma brincadeira agressiva e pesada. O evento tinha uma característica essencialmente gastronômica e era marcado por um divertimento entremeado com alguma violência. Fazia-se esferas de cêra bem finas com o interior cheio de água-de-cheiro e depois atirava-se nas pessoas. Os mais ousados, no entanto, começaram a injetar no interior das “laranjinhas ou limões-de-cheiro”, substâncias mau cheirosas e impróprias e a festa foi perdendo sua alegria. Foi exatamente esse Entrudo violento que aportou no Brasil.
Na segunda metade do século XIX, o jornal Diário da Bahia e a Igreja Católica criticavam e pediam providências às autoridades policiais contra o Entrudo. Quando se aproximava o domingo anterior à Quaresma, todo mundo “entrudava”. No Entrudo, molhava-se quantos andassem pelas ruas, invadia-se casas para molhar pessoas e não se importava que fosse gente doente ou idosa.
Em 1853 o Entrudo passou a ser reprimido com ordens policiais.
Foi exatamente nes­te período que o Carnaval começou a se originar de forma diferente, dividindo-se em duas classes: o Carnaval de Salão e o carnaval de Rua.O Carnaval de Salão tinha participação de brancos e mulatos de classe média; o Carnaval de Rua contava com negros e mulatos pobres.
Cinco anos antes da Proclamação da República, a cidade, habitada por cerca de 170 mil pessoas, organizou o seu primeiro grande Carnaval de rua. Era uma festa com grande influência européia, como quase tudo o que existia no Brasil naquela época, com luxo, requinte e comentários elogiosos. Fortemente influenciado pelo requintado Carnaval de Veneza, na Itália, e mesclando a presença de tipos do popular Carnaval de Nice, na França, o Carnaval de Salvador deu o  primeiro passo rumo à popularização com a participação de muita gente na rua.
O ano de 1884 é considerado como o marco decisivo para o carnaval da Bahia. Embora a festa já possuísse considerável porte – principalmente nos salões – é nesse  ano que teve início a organização dos festejos de ruas e os desfiles de clubes, corsos, carros alegóricos e de vários populares. A partir daí ocorre a intensificação da participação do povo e aclamação do carnaval de rua, que até hoje caracteriza esta festa na Bahia. 
O Carnaval de 1884 pegou Salvador num período de crescimento rápido, provocado pelo progresso da agricultura em outras regiões e pelas exigências de um melhor ordenamento do espaço urbano com o êxodo rural. Respirava-se progresso e os comerciantes já utilizavam nos jornais durante a festa. Tanto as pessoas que se fantasiavam como as que esperavam o cortejo vestiam-se a rigor, algumas em ternos de linho, polainas e chapéus. Vários clubes de carnaval foram fundados, mas na época não havia comissão julgadora para estabelecer quem vencia os desfiles e o julgamento era determinado pela imprensa, que media a aprovação da população através dos aplausos. O Cruz Vermelha, mais popular, sempre vencia, pois os Fantoches, mais ligado à burocracia, tinha uma torcida bem menor. Todas as outras entidades representavam a classe média. 
Em 1886, os negociantes resolvem não mais abrir o comércio na terça-feira de Carnaval. Os presidentes dos grandes clubes reuniram-se na Associação Comercial com o objetivo de estudar um itinerário para todos os préstitos. 
Dois anos depois, a cidade teve um dos carnavais mais famosos. O Cruz Vermelha e o Fantoches, deram em conjunto um grandioso baile no Politeama. Chegou, enfim, o dia do grande domingo de Carnaval. E havia muita gente pelas ruas; nas janelas, o que mais imperava na cidade era a ansiedade. O primeiro préstito a surgir foi o Cruz Vermelha com coordenação, esplendor e luxo. A multidão vibrava atirando flores sobre os carros. O segundo a desfilar foi o préstito do Fantoches, com a sua magnífica decoração dos carros alegóricos, a graça, o luxo e o gosto artístico, que justificavam o delírio de todos. Resultado: Fantoches e Cruz Vermelha desfilando sobre chuvas de rosas. O Carnaval já era uma verdadeira atração, uma realidade conseguida com muita luta e anos de esperança e já se podia afirmar que vencera definitivamente o Entrudo.
Mais tarde é introduzido no Carnaval do país, o uso “Confetes e Serpentinas”. Os confetes eram usados em retalhadas entre algumas entidades carnavalescas da época, e as serpentinas vieram para substituir as flores atiradas aos carros alegóricos.
Os negros nagôs organizaram o primeiro afoxé, denominado “Embaixada Africana”, que desfilou com roupas e objetos de adorno importados da África.Em 1896, surgiu, então o segundo afoxé, o “Pândegos da África”, organizado também por negros. Os grupos representavam casas de culto de herança africana e saíam às ruas cantando e recitando seqüência de músicas e letras. Os afoxés exibiam-se na Baixa dos Sapateiros, Taboão, Barroquinha e Pelourinho, enquanto os grandes clubes desfilavam em áreas mais nobres. Nove anos mais tarde, um outro afoxé rompeu este tácito compromisso e subiu a Barroquinha e a Ladeira de São Bento, gerando protestos em que se lastimou a quebra deste pacto não escrito da divisão espacial de classes e de ritmos no Carnaval. Neste momento, verificava-se na cidade uma divisão espacial muito séria.
Em 1949, o ano do IV Centenário de fundação da cidade de Salvador, é fundado o afoxé “Filhos de Gandhy” pelos estivadores do Porto de Salvador, como forma de homenagear o grande líder pacifista indiano assassinado em 1948, o Mahatma Gandhy.
O nome “trio elé­trico”surgiu em 1951, quando, pela primeira vez, apresentou-se no Carnaval um conjunto de três instrumentistas. Osmar tocava a famosa guitarra baiana, de som agudo; Dodô era responsável pelo violão-pau-elétrico, de som grave e Aragão, pelo “triolim”, como era conhecido o violão tenor, de som médio. Estava formado o trio musical. 
Surge em 1961, o primeiro desfile público do Rei Momo, papel desempenhado pelo motorista de táxi e funcionário público Ferreirinha.
Nos anos 70 com o apogeu do Carnaval de Salvador na Praça Castro Alves, onde todas as pessoas se encontravam e se permitiam fazer tudo. Foi a época da liberação cultural, social e sexual.
Ainda nos anos 70, os Novos Baianos ousaram e colocaram algumas caixas de som no trio, além de equipamentos transistorizados. Baby Consuelo surgiu cantando com um microfone ligado ao cabo de uma guitarra.
A composição carnavalesca Co­lumbina de Armando Sá e Miguel Brito é reconhecida oficialmente co­mo o hino do Carnaval de Salvador. 
Como se não bastasse tanta mudança, uma ainda mais radical ocorreu no Carnaval 74, com o surgimento do bloco Afro Ilê Aiyê. A entidade que deu início ao processo de rea­fri­ca­nização da festa contribuiu com a aparição do afoxé Badauê e o re­nas­cimento do afoxé Filhos de Gan­dhy. Era o começo do crescimento cultural do Carnaval de Salvador, que passou a enfatizar os conflitos e a protestar contra o racismo.
Em 1976, surgiu o trio elétrico Novos Baianos, introduzindo junto com o Trio de Armandinho, o swing baiano.
Em 1979, aconteceu, então, o encontro entre o afoxé e o trio elétrico, com o surgimento da música Assim pintou Moçambique, de Moraes e Antônio Risério, desencadeando, assim, todo o processo do afoxé eletrizado da música baiana atual.      

No início dos anos 80, a transformação do Carnaval de Salvador se intensificou mais ainda e coube ao bloco Traz os Montes introduzir algumas inovações, tais como a montagem de um trio elétrico com equipamentos transistorizados, instalações de ar condicionado para refrigerar e manter os equipamentos em temperatura suportável, retirada das bocas de alto-falantes, instalação de caixas de som de forma retangular, eliminação da tradicional percussão que ficava nas partes laterais do trio e inserção de uma banda com bateria, cantor e outros músicos em cima do caminhão.
Em 1981, o bloco Eva, surgido em 1980 e considerado uma das entidades mais irreverentes e inovadoras do Carnaval, decidiu radicalizar ainda mais do que o Traz os Montes e contratou engenheiros para assinar o cálculo estrutural do novo trio e de todo o sistema de sonorização que importou dos Estados Unidos (como uma nova mesa de som e vários periféricos necessários para o perfeito funcionamento do trio e da banda). Assim, o Eva fez com que os outros blocos fossem obrigados a investir também em seus trios.
O público e a crítica passaram a notar claramente a diferença gritante entre os seus equipamentos e os demais, assim como a qualidade dos cantores e das bandas.
Neste mesmo ano o Governador da Bahia assina o Decreto n.o 27.811, que determina a suspensão do expediente nas repartições públicas na sexta-feira da semana anterior ao carnaval.
No carnaval de 1983, apareceram algo em torno de 30 a 40 ritmos novos. 

Em 1988 pela primeira vez, um bloco afro de grande porte, o Olodum, desfila na Barra. O ano da comemoração alusiva ao centenário da escravatura no Brasil, cujo o tema foi “Bahia de Todas as Áfricas”.